quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ela

Não tente decifrá-la, você não vai entendê-la. Não lhe pergunte por quê. Aliás, é melhor você não perguntar nada, a menos que não a olhe nos olhos. Você não vai querer olhá-la nos olhos. Aqueles olhos frios e sem fim, de poço amaldiçoado, que despertam curiosidade e pavor - ninguém jamais conseguiu se safar do magnetismo que eles exercem. Não os procure.


Ela é muito cordial, e procura avisar quando vai aparecer. O aviso geralmente vem em forma de energia muito densa, muito sufocante, que se concentra nos arredores da casa escolhida. Às vezes, uma coruja passa piando muito alto minutos antes dela chegar. Mas todos nós somos suscetíveis a imprevistos, não é mesmo? Com ela não é diferente: surge um novo compromisso que a faz desistir de aparecer.


Ela contorna os imprevistos com certa ansiedade, por isso fica meio estabanada. Esquece de avisar e já vai entrando na casa de outra pessoa, ou no carro, ou a aborda no meio da rua e a carrega sem a menor cerimônia. Nem lhe dá tempo de tirar no avesso aquela camisa, nem de consertar a resistência do chuveiro, de comer a última refeição preferida, ou de dizer "Adeus" ao porteiro do prédio. Tudo ficou fora do lugar, mesmo (estátuas). Essa é a sua face mais cruel e mal-educada.


Eu disse, antes, que não era pra você procurar aqueles olhos, mas tem gente por aí que é muito audaciosa. Vou, então, mudar um pouco o meu conselho e dizer pra você não ser igual a essa gente! Esse povo tem coragem de chamá-la pra jantar! E se ela não aparece, chamam de novo! Como pode? Até parece que eles não sabem que ela vai sempre chegar. Ela é muito ocupada, mas um dia ela chega.

4 comentários:

Yuri Silver disse...

Muito bom. Uma forma bem sutil de descrever a morte.

Yann M. disse...

A morte nem é tão ruim, não é? (:

V. Allan disse...

Some people prefer the cold side of the moon...

Yuri Silver disse...

But not always the cold side is the bad side...

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